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Expedição Caminhos do Tabaco

representações da fumicultura no Sul do Brasil em cobertura jornalística patrocinada pela indústria do tabaco
Autor: 
Luis Guilherme Lemos Hasselmann
Afiliação Institucional: 
Cetab/ENSP/Fiocruz
Data de publicação: 
28/05/2026

Análise da cobertura jornalística da Expedição Caminhos do Tabaco, promovida pelo Grupo Gazeta de Comunicações e patrocinada por Philip Morris Brasil, SindiTabaco e Afubra, que constrói narrativas favoráveis ao setor fumageiro enquanto omite impactos sanitários, riscos ocupacionais e danos ambientais.

O que é a Expedição Caminhos do Tabaco

A produção de tabaco possui presença histórica nos três estados do Sul do Brasil. Neles, a fumicultura envolve milhares de propriedades familiares e compõe uma cadeia que inclui agricultores, associações de produtores, cooperativas e grandes empresas do setor. Em diversos municípios, o cultivo da planta é objeto recorrente de cobertura por veículos de comunicação que acompanham o cotidiano agrícola e suas dinâmicas socioeconômicas.

A Expedição Caminhos do Tabaco é uma iniciativa de cobertura jornalística promovida pelo Grupo Gazeta de Comunicações, empresa responsável pelo jornal Gazeta do Sul, pelo Portal Gaz e por emissoras de rádio vinculadas1. O projeto consiste em viagens anuais por municípios produtores de tabaco nos estados do Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná, durante as quais equipes de reportagem visitam propriedades rurais, entrevistam agricultores e produzem reportagens sobre o cotidiano da fumicultura.

Até 2026, a iniciativa já realizou 11 edições 2, com um percurso que chega a ultrapassar 2,6 mil quilômetros entre os três estados3. Em algumas edições, um agricultor e influenciador digital foi convidado para acompanhar parte do percurso e publicar relatos com suas impressões sobre as propriedades visitadas4. O roteiro dura aproximadamente uma semana, e as reportagens são veiculadas no jornal Gazeta do Sul impresso, no Portal Gaz e nos programas de rádio do grupo, além de serem divulgadas nas redes sociais1.

Quem apoia a iniciativa

A Expedição Caminhos do Tabaco acontece desde 2016, com cobertura inicialmente restrita ao jornal impresso Gazeta do Sul. Pelo menos a partir de 2020, quando passou a ser publicada no Portal Gaz, há registros de patrocínio de empresas e organizações vinculadas ao setor do tabaco. O Observatório solicitou à assessoria de comunicação do Grupo Gazeta informações sobre o financiamento das edições anteriores, entre 2016 e 2019, mas não obteve resposta até o fechamento deste texto.

O levantamento das matérias disponíveis no Portal Gaz entre 2020 e 2026 mostra que o registro do patrocínio aparece na maioria das edições, mas com variações significativas entre elas. Em 2020, a identificação dos patrocinadores aparece em metade das matérias (7 de 14) [5, 6, 7]5,6,7; em 2022, em 75% delas (12 de 16); em 2024 e 2025, em mais de 80% das matérias de cada edição; e em 2026, em 13 das 14 matérias publicadas2,8,9,10,11,12,13, 14,15,16,17, 18,19. As exceções são 2021, em que apenas uma entre dez matérias traz o registro de patrocínio [8], e 2023, em que nenhuma das 14 matérias disponíveis o menciona. O Observatório também pediu informações sobre os patrocinadores daquele ano à assessoria de comunicação do Grupo Gazeta, mas não houve resposta.

Os patrocinadores identificados nas edições com registro disponível incluem, de forma recorrente, o Sindicato Interestadual da Indústria do Tabaco (SindiTabaco), a Associação dos Fumicultores do Brasil (Afubra) e a Philip Morris Brasil, além da Prefeitura de Santa Cruz do Sul e, em algumas edições, a Universidade de Santa Cruz do Sul (Unisc) [5, 6, 7, 8, 9]. Na 11ª edição, de 2026, a Associação dos Municípios Produtores de Tabaco (Amprotabaco) se juntou ao grupo de patrocinadores2,8,9,10,11,12,13, 14,15,16,17, 18,19. .

A presença desses atores é relevante para compreender o contexto em que a cobertura é produzida. A Organização Mundial da Saúde (OMS) documenta que a indústria do tabaco utiliza estratégias para exagerar a importância econômica do setor e construir uma imagem pública favorável, frequentemente por meio de alianças com agricultores, associações de produtores e outros atores econômicos vinculados à cadeia produtiva, incluindo o controle do conteúdo midiático para destacar perspectivas econômicas favoráveis à indústria20. As diretrizes para implementação do Artigo 5.3 da Convenção-Quadro para o Controle do Tabaco (CQCT) destacam que o monitoramento das atividades da indústria é importante para garantir a implementação de políticas eficazes de controle do tabaco21. A identificação dos parceiros da expedição se insere diretamente nesse esforço de monitoramento, pois permite compreender quem financia a produção de conteúdo sobre a cadeia produtiva do tabaco e quais interesses estão representados nessa cobertura.

Como funciona a cobertura

Durante o percurso, as equipes de reportagem visitam propriedades previamente selecionadas e entrevistam agricultores e membros de suas famílias. As reportagens descrevem o funcionamento das lavouras, a infraestrutura das propriedades e as histórias das famílias envolvidas na fumicultura. Os textos costumam ser acompanhados de fotografias e vídeos das áreas de cultivo, das estruturas agrícolas e dos produtores entrevistados1.

A seleção das propriedades não é aleatória nem busca representar a diversidade que existe entre as famílias produtoras em relação à renda e qualidade de vida. A própria cobertura declara seus critérios: em 2021, por exemplo, a matéria de abertura informou que a expectativa era visitar "ao menos dez propriedades rurais, selecionadas por seu perfil diferenciado, que permita constituírem um modelo, ou um exemplo, do que o tabaco proporciona e pode oferecer em termos de qualidade de vida"22. Em 2026, o objetivo anunciado foi "encontrar bons exemplos de sucessão rural"2. Em 2025, a proposta foi mostrar "a capacidade de resiliência dos produtores da cadeia fumageira"23. Ou seja: a expedição seleciona apenas casos de sucesso.

Em algumas edições, o produtor rural e agroinfluenciador Giovane Luiz Weber — fumicultor e colunista no Portal Gaz — foi convidado a acompanhar o percurso e a publicar relatos com suas impressões sobre as propriedades visitadas 24.

As histórias apresentadas refletem o olhar editorial do veículo e as perspectivas das fontes consultadas — predominantemente os produtores rurais de sucesso selecionados e representantes de entidades ligadas à cadeia produtiva. Vozes críticas à fumicultura, representantes de órgãos de saúde pública ou pesquisadores que estudam os impactos da atividade não aparecem.

Como a fumicultura é representada nas reportagens

Nas matérias da Expedição Caminhos do Tabaco, a fumicultura é apresentada predominantemente a partir de uma perspectiva econômica positiva. O tabaco aparece repetidamente como motor financeiro das propriedades: a atividade que torna possível construir casas, realizar investimentos em infraestrutura, adotar novas tecnologias e manter os filhos no campo. As reportagens descrevem com frequência a capacidade das famílias de realizarem investimentos como a implantação de sistemas de irrigação por gotejamento para reduzir perdas em períodos de estiagem 25, estufas elétricas de carga contínua para a cura das folhas, equipamentos mecanizados para a colheita e painéis de energia solar26.

A continuidade geracional é outro elemento recorrente: a expedição seleciona propriedades em que jovens casais optaram por permanecer no campo e dar continuidade às atividades da família, em alguns casos com formação técnica ou universitária aplicada à gestão das lavouras 2,14. Nesses relatos, o tabaco aparece como o fator que torna viável — econômica e simbolicamente — a permanência no meio rural. Em São Lourenço do Sul, na edição de 2026, o casal Lázaro e Mariel Bubolz é apresentado como exemplo de quem combina a fumicultura com uma agroindústria familiar de pães e cucas; em Pelotas, Luís e Natália Zarnott aparecem como modelo de quem voltou do meio urbano para retomar o tabaco como principal fonte de renda e diversificou com a criação de ovelhas15. Em Sinimbu, Danrlei e Camila Frantz são descritos como exemplo de jovens que apostaram no tabaco mesmo em terreno íngreme, sem mecanização possível, recorrendo a bois de tração para o trabalho na lavoura18.

O que a cobertura deixa de fora

Essa representação, no entanto, parte de um recorte não representativo da realidade da fumicultura. As propriedades são escolhidas por seu "perfil diferenciado", por constituírem "um modelo ou um exemplo" 27. Ao privilegiar casos de sucesso, a cobertura omite a ampla heterogeneidade da cadeia produtiva — que inclui milhares de famílias em situação de vulnerabilidade econômica, endividamento crônico com as empresas fumageiras e condições precárias de trabalho.

Embora articulada a complexos agroindustriais transnacionais, a fumicultura mantém como base estrutural as pequenas propriedades familiares, cujas condições produtivas são amplamente heterogêneas28. A indústria do tabaco frequentemente argumenta que a produção de fumo é altamente rentável para os agricultores. Em 2023, um estudo encomendado pelo SindiTabaco ao Centro de Estudos e Pesquisas em Administração da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (CEPA/UFRGS) concluiu que a renda mensal per capita dos fumicultores superaria em mais de duas vezes a média brasileira29. No entanto, o estudo apresenta problemas metodológicos relevantes, conforme análise do agrônomo Germano Pollnow, pesquisador do Centro de Estudos sobre Tabaco e Saúde (Cetab/ENSP/Fiocruz). O principal problema é que a pesquisa considera a renda bruta dos produtores, desconsiderando os altos custos de produção, que comprometem de forma significativa o que de fato permanece com as famílias ao final de cada safra30.

No Sistema Integrado de Produção, modelo amplamente adotado pela indústria fumageira, os agricultores trabalham para as empresas por meio de contratos pelos quais se comprometem a plantar determinada quantidade de pés de fumo e a utilizar os insumos indicados pela companhia, que por sua vez se compromete a adquirir a produção ao final da safra. A própria indústria vende aos produtores os materiais necessários para o cultivo — sementes, fertilizantes e agrotóxicos —, geralmente mediante empréstimos no início da safra. Assim, parte da renda bruta obtida pelos fumicultores é, na prática, convertida em pagamentos à própria indústria. Os cálculos de renda bruta também não contabilizam o valor das numerosas horas de trabalho familiar empregadas30.

A base de comparação da pesquisa também é questionável: confronta a renda dos fumicultores com a da população em geral, em vez de compará-la com a de outros agricultores. Além disso, a amostra superrepresenta produtores do Paraná e de Santa Catarina — precisamente os estados onde a renda bruta declarada é maior — em detrimento do Rio Grande do Sul, onde se concentra a maioria dos produtores de fumo e onde a renda registrada é menor. Esse desequilíbrio amostral tende a inflar a média apresentada. Apenas 27% dos produtores entrevistados na pesquisa declararam ter no tabaco a única fonte de renda, o que indica que a maioria das famílias depende de outras atividades para complementar o orçamento30..

Relatos de agricultores que ficam de fora do perfil selecionado pela Expedição Caminhos do Tabaco apontam para essa lacuna entre o que ela divulga e o que fica de fora. Ao Centro de Conhecimento sobre os Artigos 17 e 18 da CQCT, Celírio da Silva, produtor de fumo no Rio Grande do Sul, descreveu anos de endividamento com a empresa com quem mantinha contrato de fornecimento — uma renda que nunca foi suficiente para cobrir as dívidas acumuladas30.. Pollnow resume: "Os produtores de tabaco podem ser representados por uma pirâmide. No topo, há uma minoria que de fato ganha dinheiro com essa atividade. Para os demais, a renda pode ser aceitável, mas não é o que a indústria tenta disseminar"30. As propriedades selecionadas pela Expedição Caminhos do Tabaco correspondem, sistematicamente, ao topo dessa pirâmide.

Além disso, a imagem de mecanização e modernização dos processos de trabalho frequentemente retratada na cobertura da expedição é contrariada pelo próprio estudo encomendado ao CEPA/UFRGS: segundo a pesquisa, apenas 7,6% dos fumicultores da região Sul possuem equipamento de irrigação e apenas 2,8% possuem máquina para colheita de tabaco29. Ou seja, os investimentos destacados nas matérias correspondem à realidade de uma minoria dos produtores, e não ao conjunto da fumicultura sul-brasileira.

Além de privilegiar um recorte de famílias produtoras prósperas, as reportagens da Expedição Caminhos do Tabaco não abordam os impactos sanitários e econômicos do tabagismo. No Brasil, estimativas do Instituto Nacional de Câncer José Alencar Gomes da Silva (INCA) indicam que o consumo de produtos de tabaco gera custos anuais superiores a R$153 bilhões em despesas médicas e perdas de produtividade — o equivalente a R$5,10 gastos pelo país para cada R$1 de lucro bruto da indústria31.

Também ficam de fora os riscos ocupacionais enfrentados pelos próprios trabalhadores da fumicultura. Além de riscos relacionados ao trabalho com agrotóxicos, eles estão expostos à Doença da Folha Verde do Tabaco, uma intoxicação aguda causada pela absorção dérmica de nicotina durante o manejo das folhas úmidas, com sintomas que incluem cefaleia intensa, tonturas, náuseas, vômitos, fraqueza e dor abdominal32. A condição não é rara: estudo realizado em Dom Feliciano, município do Rio Grande do Sul entre os maiores produtores de tabaco do país, identificou prevalência de 34,5% da doença entre os fumicultores da região durante o período de colheita33.

A gravidade da exposição ocupacional à nicotina foi também documentada em estudos realizados com trabalhadores rurais em outros países produtores de tabaco. Uma pesquisa conduzida nos Estados Unidos constatou que, ao final de uma temporada de colheita, os níveis de cotinina — principal metabólito da nicotina, utilizado como biomarcador de exposição — em trabalhadores não fumantes atingiam valores equivalentes aos de fumantes regulares. Em outras palavras, o trabalho na lavoura de tabaco expõe os agricultores a quantidades de nicotina comparáveis às absorvidas pelo consumo ativo de cigarros32. As reportagens da Expedição Caminhos do Tabaco descrevem em detalhes o processo de colheita — como os agricultores percorrem as fileiras de plantas, retiram as folhas e as transportam para as estufas —, mas nenhuma palavra é dedicada aos riscos ocupacionais associados a esse trabalho.

Os impactos ambientais do cultivo também estão ausentes. Relatório conjunto do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA) e da OMS documenta que o cultivo do tabaco é ambientalmente custoso em múltiplas dimensões: o uso intensivo de agrotóxicos contamina solos e cursos d'água nas regiões produtoras; o processo de cura das folhas em estufas a lenha consome quantidades significativas de madeira; e a própria planta exige reposição intensiva de fertilizantes químicos, comprometendo progressivamente a fertilidade do solo34.

Jornalismo ou relações públicas?

A Expedição Caminhos do Tabaco é, em sua forma, uma cobertura jornalística — com equipe, roteiro, pauta, entrevistas, fotografias e publicação de reportagens. No entanto, constrói uma representação parcial da fumicultura enquanto é patrocinada pela própria indústria, exercendo uma função que a OMS identifica como característica das táticas de relações públicas do setor do tabaco20.

A seleção das propriedades visitadas e dos temas abordados delimita quais aspectos da cadeia produtiva ganham visibilidade pública e quais permanecem ausentes. Com a cobertura sendo financiada por organizações diretamente vinculadas ao setor fumageiro, é importante questionar de que maneira interesses econômicos podem influenciar a forma como o tabaco e sua cadeia produtiva são apresentados no espaço midiático.