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Depreciar pesquisas científicas comprovadas

Desde que as evidências científicas sobre os efeitos nocivos do tabaco na saúde começaram a ganhar corpo, a indústria tenta desqualificá-las.1  Um marco dessa atuação ocorreu em 1954, quando uma empresa de relações públicas contratada por grandes fumageiras divulgou o anúncio “A Frank Statement to Cigarette Smokers” (Uma Declaração Franca para os Fumantes)2 em centenas de jornais nos Estados Unidos. O conteúdo, que chegou a milhões de pessoas, afirmava que as pesquisas ligando o tabagismo ao desenvolvimento de câncer de pulmão não eram conclusivas.

No entanto, décadas mais tarde, foram tornados públicos documentos internos da indústria mostrando que naquela época as empresas já conheciam e aceitavam a solidez dos estudos sobre tabaco e câncer, além de outras doenças e agravos.3 “A dúvida é o nosso produto, pois é o melhor meio de competir com o ‘conjunto de fatos’ que existe na mente do público em geral”, escreveu um executivo da indústria em um memorando de 1969.4

Essa estratégia também foi exaustivamente utilizada para confrontar evidências sobre os riscos do fumo passivo, inclusive no Brasil. No início dos anos 1990, a BAT e a Philip Morris iniciaram o Projeto Latino — “em antecipação, e não em reação, à chegada em força total da questão da ETS [Environmental Tobacco Smoke, ou fumaça ambiental do tabaco] à América Central e do Sul”, como indica um documento interno. O projeto foi financiado por ambas as empresas e, em 1993, contava com consultores em sete países da América Central e do Sul, entre eles o Brasil.5 

Os consultores deveriam ser percebidos como especialistas independentes e, entre as suas funções, estavam escrever cartas e editoriais para jornais; produzir artigos sobre fumo passivo e saúde para a imprensa e revistas científicas; participar de conferências científicas como palestrantes ou participantes; e conceder entrevistas. Eles também realizaram estudos sobre poluição do ar em ambientes fechados para minimizar o problema do fumo passivo. Os resultados desses estudos eram apresentados a autoridades governamentais, na tentativa de evitar legislações restritivas.6 

Mais recentemente, no Brasil, a indústria do tabaco tem utilizado a estratégia de desqualificar pesquisas para frear a proibição de cigarros com aditivos, como adoçantes e aromatizantes. Nesse caso, argumenta que não há evidências científicas sobre a relação entre o uso de aditivos e a atratividade dos produtos de tabaco — o que não é verdade.7 Em 2011, grupos ligados à indústria, como o Sindicato Interestadual da Indústria do Tabaco (SindiTabaco), financiaram um estudo8 da Fundação Getúlio Vargas que concluiu que a proibição de aditivos não traria benefícios à saúde pública.7 Apesar disso, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) publicou uma resolução proibindo esses produtos em 2012. Porém, desde então, houve uma onda de ações questionando a resolução na Justiça e, atualmente, o tema aguarda julgamento no Supremo Tribunal Federal (STF).9

Outra área em que a indústria atua para gerar dúvidas sobre evidências científicas é a dos dispositivos eletrônicos para fumar (DEF). Entre 2023 e 2024, o Congresso Nacional brasileiro promoveu debates sobre a regulamentação desses produtos; durante audiências públicas no Senado e na Câmara, representantes da indústria do tabaco e aliados apresentaram aos parlamentares dados científicos com conflitos de interesse para sustentar a tese de que os DEFs são uma alternativa para a cessação do tabagismo.10 

Além disso, em 2024, foi lançada em Brasília a plataforma Quit Like Sweden (Pare como a Suécia), com o objetivo de promover a redução do tabagismo no Brasil, inspirando-se no modelo sueco. No país escandinavo, a queda na prevalência de tabagismo foi acompanhada pela popularização dos snus, que são sachês de nicotina usados como alternativa ao cigarro, mas que também envolvem riscos à saúde.11 O Quit Like Sweden apresenta alguns documentos e artigos acadêmicos — incluindo a produção de autores com conflitos de interesse com a indústria — sobre os supostos benefícios de produtos alternativos aos cigarros tradicionais, como os DEF. 

Não há informações no site da iniciativa em relação ao seu financiamento. No entanto, a fundadora da plataforma, Suely Castro, trabalhou para o Centre for Substance Use Research, que presta consultoria e realiza pesquisas para empresas de tabaco e cigarros eletrônicos, e foi funcionária da Knowledge-Action-Change, organização beneficiária da Foundation for a Smoke-Free World (atualmente denominada Global Action to End Smoking) — que, por sua vez, foi fundada com financiamento da Philip Morris International.12 13

A Organização Mundial da Saúde (OMS) aponta que, ao distorcer a literatura científica e fabricar incerteza, a indústria do tabaco busca direcionar decisões políticas em benefício próprio. Essa estratégia pode não apenas retardar ações de controle do tabaco, como também dificultar a resposta de legisladores, órgãos governamentais e tribunais a ameaças futuras.1

 

Por Raquel Gurgel / Cetab

24/01/2025

A Revista “Crescer” é dedicada a pais e aos que se interessam por temas voltados à saúde e bem estar dos pequenos. Uma matéria que parece vir de um enredo de terror com o título: “Crianças de 9 anos já recebem adesivos para parar de fumar”, no Reino Unido”, foi publicada no início deste ano. E dá conta do atual cenário da epidemia do consumo de nicotina [droga altamente adictiva e letal entre crianças e adolescentes por lá, relacionada ao consumo de cigarros eletrônicos/”vapes”.

Referência

FRANCO, Guilherme Athayde Ribeiro. Artigo: Prá brasileiro ver. Hora Campinas, São Paulo, 24 jan. 2025. Disponível em: https://horacampinas.com.br/artigo-pra-brasileiro-ver-por-guilherme-atha.... Acesso em: 17 mar. 2025.

 

25/11/2024

O diretor de Relações Governamentais da Abrasel (Associação Brasileira de Bares e Restaurantes), Jaime Recena, afirmou  que a regulamentação do cigarro eletrônico no Brasil “é a solução”. Deu a declaração durante o seminário “Cigarros eletrônicos: por que rever a proibição é fundamental?”, promovido pelo Poder360 com o apoio da BAT Brasil (British American Tobacco).

Referência

REGULAMENTAR cigarros eletrônicos é solução, diz diretor da Abrasel. Poder 360, Brasília, 14 ez. 2022. Disponível em: https://www.poder360.com.br/economia/regulamentar-cigarros-eletronicos-e.... Acesso em: 16 dez. 2024.

 

04/11/2024

Criado inicialmente com o objetivo de ajudar os fumantes a parar de fumar, o cigarro eletrônico pareceu ser uma alternativa inofensiva. Mas na prática é bem diferente. Na verdade, diversos estudos mostram que o cigarro eletrônico pode até estimular a dependência química. Em sua maioria, esses dispositivos contêm aditivos com sabores, substâncias tóxicas e nicotina, que é uma droga que causa dependência, adoecimento e morte. E apesar de não parecer, ele também é um derivado do tabaco. Ou seja: também está ligado ao tabagismo e é tão prejudicial à saúde quanto os cigarros convencionais. E além da dependência química envolvida, fumar também tem a ver com uma dependência emocional e até mesmo comportamental, representada pelo hábito de sempre levar o cigarro à boca ou recorrer à ele em situações específicas da vida. 

Referência

POR QUE o cigarro eletrônico não ajuda a parar de fumar?: Na verdade, diversos estudos mostram que o cigarro eletrônico pode até estimular a dependência química. Ministério da Saúde, 2 jan. 2023. Disponível em: https://www.gov.br/saude/pt-br/assuntos/saude-brasil/eu-quero-parar-de-f.... Acesso em: 25 nov. 2024.

 

19/04/2024

A temática dos impactos ambientais em suas mais diversas formas tem sido uma das mais importantes discussões globais da atualidade. Temas como mudança climática, desastres, abastecimento e segurança alimentar, saúde dos ecossistemas e poluição causada por plásticos e microplásticos têm ganhado cada vez mais atenção de pesquisadores em todo o mundo, já que vêm impactando de forma significativa a vida no planeta. Neste material, é abordado especificamente o problema dos microplásticos e dos impactos ambientais causados pela cadeia de produção do tabaco.

Referência

CENTRO DE ESTUDOS SOBRE TABACO E SAÚDE. Microplásticos e os impactos da cadeia de produção do tabaco. Cetab/Ensp/Fiocruz, Rio de Janeiro: Fiocruz, 2024. 43p.

 

15/04/2024

A manutenção da proibição dos cigarros eletrônicos pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) ignora o resultado da consulta pública sobre o tema, onde 59% dos 13.930 participantes se manifestaram contrários ao banimento. A avaliação é do presidente do DIRETA (Diretório de Informações para Redução dos Danos do Tabagismo) após anúncio do órgão regulador. A proposta de nova resolução será apresentada em reunião da Diretoria Colegiada nesta quarta-feira, 17, às 9h30min, e aponta para manter a proibição.

Referência

MANUTENÇÃO da proibição dos cigarros eletrônicos pela Anvisa ignora resultado da consulta pública, afirma entidade de redução de danos. Olá Jornal, Rio Grande do Sul, 15 abr. 2024. Disponível em: https://olajornal.com.br/manutencao-da-proibicao-dos-cigarros-eletronico.... Acesso em: 31 mar. 2025.

 

08/02/2024

Um grupão privado de produtores de tabaco no Facebook virou alvo da influência da indústria do cigarro, a qual tenta convencer agricultores a pressionar pela liberação de cigarros eletrônicos (os chamados vapes). A meta é engajá-los contra novas restrições ao produto debatidas pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e pela Organização Mundial da Saúde (OMS).

Referência

NAKAMURA, Pedro. Em grupão no Fcebook, indústra do cigarro empurra lobby do vape para fumiculores: agroinfluencer parceiro da Philip Morris tenta engajar agricultores contra potenciais novas restrições ao cigarro eletrônico pela Anvisa. Núcleo, [s.l.], 8 fev. 2024. Disponível em: https://nucleo.jor.br/reportagem/2024-02-08-lobby-vape-grupao-facebook/. Acesso em: 4 mar. 2024.

 

03/02/2024

Cigarros eletrônicos e outros “vapes” não são seguros, tampouco menos nocivos que cigarros. Eles causam forte dependência em razão da nicotina, que é também prejudicial à saúde, e de aditivos que potencializam seus efeitos.

Referência

CARVALHO, Adriana; AQUINO, Carlota. Vapear é fumar, não se deixe enganar: Duas especialistas desconstroem, por vários ângulos, o argumento de que os cigarros eletrônicos podem ser benéficos para a sociedade. Veja Saúde, 3 fev. 2024. Disponível em: https://saude.abril.com.br/coluna/com-a-palavra/vapear-e-fumar-nao-se-de.... Acesso em: 7 out. 2024.

 

25/01/2024

O principal beneficiado pela falta de regulamentação do cigarro eletrônico no Brasil é o crime organizado. Essa é a avaliação da senadora Soraya Thronicke (Podemos-MS), autora do projeto de lei nº 5.008 de 2023, que visa a estabelecer regras para o comércio e a publicidade de dispositivos para fumar. 

 

Referência

MEDEIROS, Israel. Não regulamentar cigarros eletrônicos ajuda o crime, diz Thronicke: Senadora do MS é autora do projeto de lei que estabelece regras para a importação, exportação, fabricação e venda dos dispositivos; país tem 2,9 milhões de usuários. Poder 360, [s.l.], 25 jan. 2024. Disponível em: https://www.poder360.com.br/congresso/nao-regulamentar-cigarros-eletroni.... Acesso em: 7 out. 2024.

 

06/11/2023

Fundação para um Mundo Livre de Fumaça de Tabaco, cuja sigla em inglês é FSFW (Foundation for a Smoke-Free World), desde sua criação tem sido objeto de preocupações e investigações devido às suas ligações com a indústria do tabaco, em especial a Philip Morris International (PMI), que financia suas atividades. Análises dos relatórios fiscais anuais da fundação ao longo de cinco anos revelaram que boa parte de seu financiamento é direcionada para pesquisas e atividades que se alinham com a mensagem e os interesses comerciais da PMI.

Referência

FUNDAÇÃO para um Mundo Livre de Fumaça de Tabaco (FSFW): a sombra da indústria do tabaco na ciência. Cetab/Ensp/Fiocruz, Rio de Janeiro, 6 nov. 2023. 2p.

 

27/03/2023

Em artigo original publicado no Jornal Brasileiro de Pneumologia vol. 49, n. 1 / 2023, cientistas detectaram que há um possível aumento de experimentação e uso atual de cigarros eletrônicos e narguilé no Brasil. Os pesquisadores analisaram os dados do inquérito telefônico Covitel 2022, cuja amostra é composta de 1.800 indivíduos maiores de 18 anos de idade, provenientes das cinco macrorregiões brasileiras. Segundo a análise, as prevalências de história de uso de cigarro eletrônico e narguilé foram idênticas (7,3%), enquanto a prevalência de consumo atual de cigarros industrializados foi de 12,2%. Adultos jovens (18-24 anos) apresentaram as maiores prevalências de experimentação de cigarro eletrônico (19,7%) e de narguilé (17%).

Referência

USO de cigarro eletrônico e narguilé no Brasil: um cenário novo e emergente. O estudo Covitel, 2022. SBPT, Brasília, DF, 13 mar. 2023. Disponível em: https://sbpt.org.br/portal/cigarros-eletronicos-jbp-2023/. Acesso em: 27 mar. 2023.

 

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