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Manipular a opinião pública para ganhar respeitabilidade

A indústria do tabaco sempre empregou estratégias para conquistar boa reputação, e ações de marketing foram historicamente utilizadas para isso.1 2 3 4 5 Porém, quando ganharam força estudos demonstrando os impactos negativos do tabagismo, legislações para restringir esse tipo de ação começaram a entrar em vigor mundo afora. A Convenção-Quadro para o Controle do Tabaco (CQCT) orienta, em seu Artigo 13, que os países signatários proíbam toda publicidade, promoção e patrocínio do tabaco.6 No Brasil, a publicidade é proibida, assim como o merchandising e o patrocínio da indústria fumageira a atividades culturais ou esportivas.7 

Hoje, não há nenhuma dúvida de que o tabagismo é um importante fator de risco para as principais doenças crônicas não transmissíveis. Somente em 2019, mais de 8,7 milhões de pessoas morreram em todo o mundo por problemas relacionados ao tabaco.8 Mas, mesmo com todas as restrições à publicidade e diante um corpo de evidências científicas que depõem contra ela, a indústria ainda encontra formas de autopromoção. Como?

De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), uma das principais estratégias dessa indústria para manipular a opinião pública e ganhar respeitabilidade é a Responsabilidade Social Corporativa (RSC), ou seja,  o desenvolvimento de ações de impacto social e/ou ambiental, como programas sociais para produtores de tabaco, campanhas ambientais e ações educativas. Longe de serem neutras, ações de RSC são projetadas para influenciar a opinião pública e criar aliados sociais e políticos. “Cada vez que um grupo aceita financiamento ou trabalha com a indústria do tabaco, esta recupera parte da respeitabilidade perdida devido aos danos sociais, econômicos, ambientais e à saúde causados ​​por seus produtos”, explica o documento Tobacco Industry Interference - A Global Brief, publicado pela OMS em 2012.9

Exemplos disso são muito comuns no Sul do Brasil, região que concentra fortemente a produção de folhas de fumo no país. O Sindicato da Indústria do Tabaco (SindiTabaco) criou o Instituto Crescer Legal, cuja missão declarada é combater o trabalho infantil e adolescente em áreas rurais — um problema historicamente presente na fumicultura. Apesar da atuação do instituto, não há relatórios que indiquem redução do trabalho infantil como resultado da iniciativa. A Associação dos Fumicultores do Brasil (Afubra) — que em tese representa agricultores, mas na prática tem posicionamentos alinhados aos da indústria10 — executa o Programa Verde é Vida em escolas de vários municípios para “desenvolver a educação socioambiental”e “promover a preservação do meio ambiente”, apesar de a fumicultura ser uma atividade de grande impacto ambiental.11 

Desastres climáticos e eventos extremos também são oportunidades para a indústria fortalecer seus laços com as comunidades envolvidas. Após as enchentes que assolaram o Rio Grande do Sul em 2024, tanto a Philip Morris Brasil como a BAT Brasil fizeram doações para municípios atingidos.12 13 Durante a pandemia de covid-19, as duas empresas igualmente doaram dinheiro, além de equipamentos, máscaras e alimentos a municípios do Sul do país.14 15 16 17 18 19 Vale ressaltar que, apesar dessas ações, as empresas não se engajaram em cumprir medidas sanitárias que prejudicariam sua produção: em março de 2020, um decreto de Santa Cruz do Sul (RS) proibiu atividades industriais que não fossem urgentes ou expressamente indicadas pela Prefeitura, mas a fábrica da Philip Morris no município não parou.20

As empresas desenvolvem também ações de RSC fora das regiões produtoras. A Philip Morris, por exemplo, patrocinou o Prêmio Cidadania em Respeito à Diversidade LGBT+ em 2022,21 financiou uma atividade da programação oficial da Parada do Orgulho LGBT+ de São Paulo em 202422 e apoiou blocos de carnaval ligados à diversidade na mesma cidade no ano seguinte.23 

Ações como as citadas aqui podem desencadear uma legitimação social que, de outro modo, empresas fumageiras dificilmente teriam. A indústria do tabaco utiliza a RSC como forma de angariar aliados capazes de influenciar tomadas de decisão, ampliando assim seu capital político.9 

Ademais, ações de RSC podem ser consideradas uma forma de patrocínio, segundo as diretrizes para a implementação do Artigo 13 da CQCT. Justamente por isso, as diretrizes recomendam que as Partes proíbam contribuições de empresas de tabaco a qualquer outra entidade para “causas socialmente responsáveis” — e que toda publicidade dada a práticas “socialmente responsáveis” da indústria seja proibida, pois constitui publicidade e promoção do tabaco.24 O Brasil ainda não classifica explicitamente a responsabilidade social corporativa como uma forma de publicidade ou patrocínio. O país também não possui regulamentação específica para controlar ou proibir a promoção pública de atividades de responsabilidade social corporativa.25

 

Por Raquel Gurgel e Alex Kornalewski / Cetab

29/01/2024

Alexa Addison se lembra de como eram os vapes quando ela estava no ensino médio. O cigarro eletrônico dominante era o Juul, um retângulo fino e preto com cantos afiados que lembrava um pen drive. Quando Addison, de 19 anos, começou a faculdade na Universidade da Carolina do Norte em Wilmington, no ano passado, o vape que ela estava acostumada havia mudado. Ela viu muitos de seus colegas de classe brandindo Elf Bars, cigarros eletrônicos de cores vivas que pareciam caixas de AirPods, com chaminés levemente inclinadas para inalação.

Referência

VAPES ganham formas de brinquedos e cores para atrair a geração Z; médicos falam dos riscos. O Globo, Rio de Janeiro, 13 nov. 2023. Disponível em: https://oglobo.globo.com/saude/noticia/2023/11/13/vapes-ganham-formas-de.... Acesso  em: 25 mar. 2024.

 

22/01/2024

O número de brasileiros que consomem regularmente dispositivos eletrônicos para fumar cresceu nos últimos anos. Uma pesquisa recente do Ipec, com dados de 2023, mostra que 2,9 milhões consomem os vapes no país. O número é cinco vezes maior do que o divulgado na pesquisa feita no ano anterior, quando 2,2 milhões de brasileiros afirmaram consumir os dispositivos. O consumo cresce no Brasil mesmo em meio à proibição da Anvisa e preocupa especialistas, já que os dispositivos eletrônicos para fumar são proibidos no país desde 2009. A Agência está com uma consulta pública aberta até o próximo dia 9 de fevereiro, onde a população pode defender a regulamentação dos dispositivos para fumar, o que já é uma realidade em cerca de oitenta países. Para o pneumologista Rodolfo Behrsin, os cigarros eletrônicos regulamentados seriam uma garantia a mais aos consumidores. “São produtos que eles reduzem bastante a toxicidade quando a gente compara com o cigarro tradicional. Diferente de produtos que não tem essa certificação – esses, sim, são produtos feitos sem nenhum critério sanitário, sem higiene.”

Referência

QUASE três milhões de brasileiros consomem cigarros eletrônicos, diz Ipec: Pesquisa aponta 2,9 milhões de consumidores no Brasil. Número é cinco vezes maior do que em 2022. CNN Brasil, São Paulo, 22 jan. 2024. Disponível em: https://www.cnnbrasil.com.br/nacional/quase-tres-milhoes-de-brasileiros-.... Acesso em: 29 jan. 2024.

 

18/01/2024

Apesar da proibição dos cigarros eletrônicos no Brasil, a Fiemg estima que o país tenha hoje cerca de 3,3 milhões de usuários. Diante desse universo, se o setor de fumo nacional assumir a produção e a distribuição dos dispositivos de maneira legalizada, o faturamento é estimado na casa dos R$ 16 bilhões.

Referência

REGULAMENTAÇÃO de cigarros eletrônicos pode arrecadar R$ 2,2 bi: Cerca de 115 mil empregos (formais e informais) seriam criados, a maioria (cerca de 55 mil) na agricultura. MoneyReport, 18 jan. 2024. Disponível em: https://www.moneyreport.com.br/economia/regulamentacao-de-cigarros-eletr.... Acesso em: 29 jan. 2024.

 

16/01/2024

O dinheiro da indústria do tabaco está financiando grupos pró-vaping e influenciadores na América Latina, ao mesmo tempo que a indústria, enfrentando o declínio do uso de cigarros e um futuro financeiro incerto, busca maior aceitação de sua mais recente geração: os produtos de nicotina sem fumaça. Porém, esse fluxo de dinheiro está longe de ser direto. Frequentemente, os valores passam por vários intermediários, com a Fundação para um Mundo sem Fumo, Inc., uma organização sem fins lucrativos sediada nos EUA, atuando como nó central. 

Referência

PÉREZ, María. Na batalha para liberar vapes, a influência secreta do dinheiro da indústria do tabaco. Agência Pública, [s.l.], 16 jan. 2024. Disponível em: https://apublica.org/2024/01/na-batalha-para-liberar-vapes-a-influencia-.... Acesso em: 29 jan. 2024.

 

16/01/2024

O avanço do lobby das tabagistas se refletiu em uma piora na pontuação do Brasil no Índice de Interferência da Indústria do Tabaco de 2023, que mede o quanto a indústria influi nas políticas públicas de um país. O Brasil registrou 66 pontos, oito a mais do que em 2021, em uma escala de 0 a 100, e ficou na 59º posição entre os 90 países. Para as organizações responsáveis pela versão brasileira do índice, além de uma melhora no trabalho de monitoramento, influenciou na piora do ranking a atuação de ex-diretores da Anvisa e políticos contratados pela indústria na discussão sobre os DEFs, entre outros fatores. O índice é formulado pela ACT – Promoção da Saúde e pelo Observatório de Monitoramento das Estratégias da Indústria do Tabaco, ligado à Fiocruz.

Referência

OLIVEIRA, Rafael; SCOFIELD, Laura; FEIFEL, Bianca. Como a indústria do tabaco pressiona a Anvisa para vender vapes: Empresas repetem estratégias do passado para tentar convencer consumidores e órgão regulador. Agência Pública, [s.l.], 19 jan. 2024. Disponível em: https://apublica.org/2024/01/como-a-industria-do-tabaco-pressiona-a-anvi.... Acesso em: 29 jan. 2024.

 

08/01/2024

Uma influenciadora está viralizando nas redes ao mostrar um jeito um tanto inusitado para jovens pararem de usar o cigarro eletrônico: cheirar morango.

Referência

VAPE: influenciadora viraliza nas redes ao demonstrar jeito " natural" de parar de fumar cigarro eletrônico; entenda. O Globo, 8 jan. 2024. Rio de Janeiro, Disponível em: https://oglobo.globo.com/saude/noticia/2024/01/08/vape-influenciadora-vi.... Acesso em: 25 mar. 2024.

 

03/01/2024

Como parte do seu compromisso com o meio ambiente e com a sustentabilidade, a Japan Tobacco International (JTI) chegou, em 2023, à marca de 90% da frota de automóveis movida à álcool, a forma menos poluente de combustível. Ela possui um fator de emissão de CO2 200% menor em comparação à gasolina. Com a conversão dos automóveis para etanol, evitou-se, em 2023, a emissão de 539 tCO2e para a atmosfera. Para se ter uma ideia do impacto dessa redução, a cada sete árvores, em média, é possível sequestrar uma tonelada de carbono nos seus primeiros 20 anos de idade. Ou seja, para neutralizar esta emissão de 539 tCO2e seriam necessárias 3.773 árvores em 20 anos, ou 75.460 árvores em um ano.

Referência

JTI evita a emissão de mais de 500 tCO2e em 2023 com conversão de combustível na frota de automóveis. Olá Jornal, Rio Grande do Sul, 3 jan. 2024. Disponível em: https://olajornal.com.br/jti-evita-a-emissao-de-mais-de-500-tco2e-em-202.... Acesso em: 6 maio 2024.

 

03/01/2024

Líder de exportação de tabaco há 30 anos, o Brasil tem potencial para ser um player global de nicotina com a regulamentação dos cigarros eletrônicos. A qualidade do tabaco brasileiro trouxe o país até aqui e pode levá-lo ainda mais longe. O gerente sênior de Assuntos Científicos e Regulatórios da BAT Brasil, Iuri Esteves, explica que, como segundo maior produtor mundial de tabaco, o país é forte candidato a entrar neste mercado hoje dominado pela Índia.

Referência

LÍDER de exportação há 30 anos, Brasil tem potencial para ser um player global de nicotina com regulamentação dos cigarros eletrônicos. Olá Jornal, Rio Grande do Sul, Disponível em: https://olajornal.com.br/lider-de-exportacao-ha-30-anos-brasil-tem-poten.... Acesso em: 6 maio 2024.

 

02/01/2024

Entre janeiro e novembro as indústrias do tabaco realizaram 5.761 admissões, contra 5.561 desligamentos no mercado de trabalho de Venâncio Aires. O setor representa 39% do total movimentado em onze meses com contratações. A maior parte das contratações ocorre durante o período de safra de processamento, que neste ano ocorre entre os meses de janeiro e maio.

Referência

INDÚSTRIAS do tabaco concentram 39% das admissões na mercado de trabalho de Venâncio Aires em 2023. Olá Jornal, Rio Grande do Sul, 2 jan. 2024. Disponível em: https://olajornal.com.br/industrias-do-tabaco-concentram-39-das-admissoe.... Acesso em: 6 maio 2024.

 

30/12/2023

Responsável por quase 50% do valor da produção de tabaco em folhas do Brasil, o Rio Grande do Sul deve ser o estado mais beneficiado pela regulamentação dos cigarros eletrônicos. Um estudo inédito realizado pela Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais (FIEMG) revela que a criação de regras para comercialização do dispositivo no país pode gerar 32 mil postos de trabalho e um aumento de renda de R$ 132 milhões no setor, além de um faturamento adicional de R$1,6 bilhão para a fumicultura.

Referência

REGULAMENTAÇÃO de cigarros eletrônicos poderia gerar renda de R$ 132 milhôes para fumicultores brasileiros, segundo estudo. Olá Jornal, Rio Grande do Sul, 30 dez. 2023. Disponível em: https://olajornal.com.br/regulamentacao-de-cigarros-eletronicos-poderia-.... Acesso em: 6 maio 2024.

 

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