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Manobras para capturar processos políticos e legislativos

A Organização Mundial da Saúde (OMS) aponta que a indústria do tabaco atua para influenciar ou capturar processos políticos e legislativos, buscando moldar regulações, enfraquecer políticas de saúde pública e interferir na tomada de decisões governamentais. As táticas para isso incluem fazer lobby (seja de forma direta, seja por meio de grupos de fachada), incitar controvérsias entre ministérios da saúde e de áreas econômicas, elaborar e disseminar propostas de leis favoráveis à indústria, e tentar acessar as negociações das Partes da Convenção-Quadro para o Controle do Tabaco (CQCT).1

No Brasil, a Câmara Setorial da Cadeia Produtiva do Tabaco, instituída pelo Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) em 2004,2 tem sido um ator relevante nesse sentido desde a sua criação. Segundo um relatório do Mapa, a Câmara “buscou impedir a aprovação da ratificação da Convenção-Quadro para o Controle do Tabaco pelo Brasil”, reunindo-se com deputados e senadores e realizando audiências públicas com esse objetivo.3

O órgão também se articula para defender os interesses da indústria em diálogos com autoridades que representam o Brasil nas sessões da Conferência das Partes (COP) da CQCT.4 Entre seus membros, estão representantes da Associação Brasileira da Indústria do Fumo (Abifumo), do Sindicato Interestadual da Indústria do Tabaco (SindiTabaco), da Associação dos Fumicultores do Brasil (Afubra), e da Associação dos Municípios Produtores de Tabaco (Amprotabaco).5

Quando as doações de pessoas jurídicas para campanhas eleitorais ainda eram permitidas no Brasil, empresas fumageiras doaram recursos para parlamentares que até hoje fazem parte de sua base de sustentação no Congresso, como os deputado federais Heitor Schuch (PSB-RS)6, Alceu Moreira (MDB-RS)7 e Marcelo Moraes (PL-RS).8 Junto a outros parlamentares, eles atuam como aliados da indústria do tabaco, inclusive se mobilizando para tentar influenciar o posicionamento brasileiro das COPs.4

Moraes, a propósito, protagonizou uma das mais emblemáticas tentativas de enfraquecer a implementação da CQCT no Brasil: em 2019, participou de uma articulação para pôr fim à Comissão Nacional para Implementação da Convenção-Quadro (Conicq)9. A Comissão, de fato, chegou a ser extinta naquele ano por meio de decreto — embora tenha mantido suas atividades, com base em um parecer da Consultoria Jurídica do Ministério da Saúde. A reconstituição oficial da Conicq, porém, só ocorreu em 2023.

A composição da Comissão também tem sido alvo de disputa. Em 2023, a Afubra solicitou a inclusão da cadeia produtiva do tabaco entre seus membros10 e, em 2025, os deputados federais Heitor Schuch, Marcelo Moraes e Rafael Pezenti (MDB-SC) apresentaram o PL 877/202525, que propõe que a Conicq inclua, obrigatoriamente, representantes do Congresso Nacional, de produtores rurais, e autoridades dos estados brasileiros com produção relevante de fumo.4

No contexto das discussões sobre a regulamentação de Dispositivos Eletrônicos para Fumar (DEF) no Brasil, destaca-se o PL 5.008/2023, de autoria da senadora Soraya Thronicke (Podemos-MS), que propõe permitir a produção, importação, exportação, comercialização e o consumo dos cigarros eletrônicos no país.11 Em 2024, a senadora viajou a Bolonha, na Itália, para visitar instalações da Philip Morris International onde são produzidos dispositivos de tabaco aquecido, em visita totalmente custeada pela empresa.12

Representantes da indústria e seus aliados também conseguem dialogar diretamente com o poder Executivo, com níveis limitados de transparência nesses contatos: segundo monitoramento realizado pela ACT Promoção da Saúde, em 2023 e 2024 foram realizadas ao menos 27 reuniões entre representantes do governo e aliados ou empresas do setor, sendo o Ministério da Fazenda o órgão com o maior número de encontros. As pautas mais frequentes envolveram temas como carga tributária e preço mínimo, mas muitas vezes os temas tratados não foram divulgados de forma adequada, sendo acessíveis apenas por meio de pedidos via Lei de Acesso à Informação.10

O Artigo 5.3 da CQCT determina que as Partes devem proteger suas políticas de controle do tabaco da interferência comercial da indústria.13 As diretrizes para a implementação desse Artigo recomendam que os países limitem interações com o setor, adotem transparência total em qualquer contato e previnam conflitos de interesse em processos institucionais.14 Os episódios descritos aqui reforçam a centralidade dessas diretrizes para proteger a formulação de políticas públicas orientadas pela saúde coletiva.

 

Por Luis Guilherme Hasselmann e Raquel Gurgel / Cetab

04/07/2024

O deputado federal Heitor Schuch protocolou na Comissão de Indústria, Comércio e Serviços, da Câmara dos Deputados, requerimento para realizar uma audiência pública sobre o impacto econômico na comercialização ilegal de cigarros eletrônicos no Brasil.

Referência

WACHOLZ, Leticia. Audiência vai debater o impacto econômico da comercialização ilegal de cigarros eletrônicos. Folha do Mate, Rio Grande do Sul, 4 jul. 2024. Disponível em: https://folhadomate.com/livre/audiencia-vai-debater-o-impacto-economico-.... Acesso em: 29 jul. 2024.

 

25/06/2024

Levantamento de reuniões entre Executivo e representantes da indústria do tabaco (2023–2024)

Referência

 

24/06/2024

Apresentação ACT, que discorre sobre os seguintes tópicos da reforma tributária 3S: Múltiplas crises – climática, social, ambiental, sanitária; tudo aquilo que faz mal à saúde e ao meio ambiente deve pagar mais imposto e não deve ser subsidiado; IS = mitigação (insuficiente) das externalidades; Papel do Estado como indutor de políticas públicas que promovam saúde, equidade e sustentabilidade para o país no longo prazo e evidências – oportunidade de ação e correção rota.

Referência

JOHNS, Paula. Audiência Pública Reforma tributária 3S. ACT Promoção da Saúde. Brasília, Rio de Janeiro, 24 jun. 2024. 

 

24/06/2024

Representantes de empresas de tabaco, bebidas alcoólicas, refrigerantes, petróleo e automóveis tentam fazer com que o Congresso deixe seus produtos fora do alcance do Imposto Seletivo, criado pela reforma tributária para ser aplicado a itens prejudiciais à saúde ou ao ambiente. A Câmara dos Deputados debate atualmente a quais produtos e serviços será aplicado o novo tributo, também chamado de "imposto do pecado" —o que pode trazer impactos significativos e a longo prazo aos segmentos escolhidos. Em audiência nesta segunda-feira (24), as empresas apresentaram argumentos para tentar convencer os parlamentares.

Referência

POMPEU, Ana. Empresas de tabaco, cerveja e petróleo tentam fugir de 'imposto do pecado'. Folha de São Paulo, São Paulo, 25 jun. 2024. Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/mercado/2024/06/empresas-de-tabaco-cerveja.... Acesso em: 7 abr. 2025.

 

24/06/2024

Grupo de trabalho sobre a regulamentação da reforma tributária (PLP 68 de 2024). Audiência Pública. Tema: Imposto Seletivo Local: Anexo II, Plenário 02 Início: 24 de junho de 2024 às 14:30.

Referência

CÂMARA DOS DEPUTADOS. Grupo de trabalho sobre a regulamentação da reforma tributária (PLP 68 de 2024). YouTube, 24 jun. 2024. 1 Vídeo (321 min), son., color. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=RaU8kU42g_M. Acesso em: 7 abr. 2025.

 

24/06/2024

Convido, então, para tomar assento e compor a primeira Mesa: Nelson Leitão Paes, Assessor da Secretaria Extraordinária de Reforma Tributária do Ministério da Fazenda e Coordenador do "GT-19 — Imposto Seletivo" do Programa de Assessoramento Técnico à Implementação da Reforma da Tributação sobre o Consumo, PAT-RTC, que vai participar via Zoom; Luiz Carlos Moraes, Vice-Presidente da Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos e Automotores — ANFAVEA, pode se dirigir à mesa; Márcio Holland, professor da Escola de Economia de São Paulo da Fundação Getulio Vargas, que também participará via Zoom; Marcio Felix, Presidente da Associação Brasileira dos Produtores Independentes de Petróleo — ABPIP; Marcos Woortmann, Diretor-Adjunto do Instituto Democracia e Sustentabilidade — IDS; José Eduardo Macedo Cidade, Presidente da Associação Brasileira de Bebidas Destiladas — ABBD, que já está presente; Márcio Marciel, Presidente-Executivo do Sindicato Nacional da Indústria de Cerveja, SINDICERV; Edimilson Alves, Gerente-Executivo da Associação Brasileira da Indústria de Fumo, ABFUMO; Thiago Álvares Feital, representante da Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais — FIEMG; Paula Johns, Diretora Executiva da ACT, Promoção da Saúde, que estará remotamente

Referência

2ª SESSÃO Legislativa Ordinária da 57ª Legislatura. Câmara dos Deputados, Brasília, 24 jun. 2024. Disponível em: https://escriba.camara.leg.br/escriba-servicosweb/html/73477. Acesso em:. 28 maio 2025.

 

18/06/2024

Conhecida no Senado Federal como “Musa do Fumo”, a senadora Soraya Thronicke (Podemos-MS) teve mais uma derrota junto à opinião pública brasileira durante debate promovido pela TV Senado. O coordenador da Comissão Científica de Tabagismo da Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia, o médico pneumologista Paulo César Corrêa, afirmou, na cara da parlamentar sul-mato-grossense, que o Projeto de Lei nº 5.008/2023, de autoria da senadora para regulamentar os cigarros eletrônicos, só beneficia a indústria tabagista brasileira. “O projeto da senadora parte de várias premissas falsas. A primeira delas é econômica. Na verdade, o cigarro tradicional causa prejuízos de R$ 153,5 bilhões por ano ao país, enquanto a arrecadação soma R$ 8 bilhões”, argumentou o especialista, deixando claro que a parlamentar está fazendo lobby para a indústria do tabaco.

Referência

BRANDÃO, Nélio. Pneumologista desmascara Senadora ao mostrar que proposta dela é lobby para indústria tabagista. Blog do Nélio, [s.l.], 18 jun. 2024. Disponível em: https://blogdonelio.com.br/pneumologista-desmascara-senadora-ao-mostrar-.... Acesso em: 01 jul. 2024.

 

17/06/2024

O Ministério da Justiça e Segurança Pública (MJSP) promoveu, na sexta-feira (14), encontro para discutir estratégias e aprimorar o controle sobre a venda ilegal de Dispositivos Eletrônicos para Fumar (DEFs), fenômeno crescente e que coloca em alerta as autoridades brasileiras.

Segundo a secretária Nacional de Políticas sobre Drogas e Gestão de Ativos, Marta Machado, a venda de DEFs é proibida pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) tanto no ambiente virtual quanto no físico. O principal desafio é desenvolver formas para controlar os meios utilizados pelos criminosos para burlar a fiscalização oficial e comercializar os produtos em redes sociais, aplicativos e sites.

Fonte: https://www.gov.br/mj/pt-br/assuntos/noticias/mjsp-discute-acoes-contra-a-venda-ilegal-de-dispositivos-eletronicos-para-fumar-na-internet

 

16/06/2024

A deputada baseou-se no levantamento divulgado pelo Sinditabaco que apontou prejuízos de R$ 95 milhões ao setor.

Referência

KELLY Moraes solicita medidas de apoio aos produtores de tabaco. Gaz, Rio Grande do Sul, 16 jun. 2024. Disponível em: https://www.gaz.com.br/kelly-moraes-solicita-medidas-de-apoio-aos-produt.... Acesso em: 16 jun. 2024.

 

25/05/2024

A senadora sul-mato-grossense Soraya Thronicke (Podemos), que ganhou alcunha de “Musa do Fumo”, voltou a causar no Senado Federal ou tentar, mais uma vez, defender o indefensável, ou seja, a liberação do comércio de cigarros eletrônicos em todo o território brasileiro para satisfazer o lobby da indústria do tabaco.

Referência

BRANDÃO, Nélio. Musa do Fumo, Soraya vira meme no Senado ao promover “feirão” para defender cigarros eletrônicos. Blog do Nélio, [s.l.], 25 maio 2024. Disponível em: https://blogdonelio.com.br/musa-do-fumo-soraya-vira-meme-no-senado-ao-pr.... Acesso em: 17 jun. 2024.

 

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